Não consigo enxergar motivos para seguir o que não desejo. Os desejos vêm de dentro para fora, fazendo com que toda moralidade seja alienação.
Talvez os primeiros moralistas realmente acreditassem nas suas convicções. Mas a realidade é uma, ninguém sabe de nada. O nada é a essência da sociedade.
Vivemos para o futuro, rezamos para o além. Santa ignorância!
Não tenho desprezo pelos humanos, mas desprezo toda e qualquer alienação. Sendo assim, desprezando as pessoas alienadas nas convicções usurpadas de outras pessoas ainda mais doentes.
Nosso corpo é uma fonte de prazer, isso é um fato. Mas é uma fonte de dor também, dois fatos. Os opostos andam juntos, pelo menos os pólos extremos.
Não consigo ver sexualidade como oposição, bem pelo contrário. As fraquezas são as mesmas, os sentimentos são os mesmo, a burrice também é compartilhada igualmente.
Eu queria expressar minha raiva de outras formas, queria explodir igrejas e comunidades racistas. Mas isso me tornaria igual ao resto. Peco em pensar nessas coisas, mas peco em existir. Agradeço ao senhor, que me fez do pecado, por toda a dor que eu sinto.
Um dia pretendo saber se todos sentem a mesma dor que eu, a falta de sentimento, a frieza em relação a tudo e todos e a extrema racionalidade que me faz apelar para estímulos externos para me sentir minimamente viva.
Quero ter pena, mas não acho que isso seja digno. Pelo menos eu me envergonharia se alguém me olhasse com cara de pena. Isso já aconteceu, foi difícil me visitar o inferno. Parece que o inferno não se sensibilizou com minha ambiguidade. Nem os piores buracos do mundo me suportaram.
Eu poderia estar deprimida, isso se eu tivesse sentimentos. Poderia querer poder, apesar de saber mentir e convencer bem, a política é chata. Não suportaria uma semana disfarçando minha melancolia.
Por algum tempo pensei que isso fosse sentimento, mas são duas coisas totalmente diferentes. Melancolia é mais ligado ao desgosto e o sombrio do que a sensibilidade e qualidades morais.
Não posso resumir essa situação em nada. Mas é nada o que eu sinto! É um nada profundo. Na verdade eu não acredito nos significados dos dicionários e tenho desprezo por toda babaquice que os historiadores estudam.
Afinal, nada mudou. Tudo é nada em relação a vida de uma pessoa. É simples e tão subjetivo como a melancolia vagabunda que me persegue e me faz ter esse sentimento de nada. Sentir-me um nada em relação a tudo e sentir que tudo é nada em relação a mim.